5 de setembro de 2008

SERÁ QUE ESTOU SONHANDO?

E assim termina mais um dia de serviço. A hora de "vazar" para casa é a melhor hora. E é óbvio, vamos com cuidado para não pegar ocorrências no caminho de volta para a unidade. Já imaginou? Ter que ficar "agarrado" em um DP após o término do turno? De graça? Na PMERJ? Nem louco. Já nos arriscamos demais em troca de nada. Não somos gente. Somos escravos do Estado. Uns miseráveis. Mas bem, isso todos nós já sabemos. Então,vamos logo pra casa. Nossas famílias nos esperam.

Adentro à unidade e parqueio a viatura. A outra guarnição já está lá, à nossa espera. Sorte nossa, pois fomos rendidos no horário. Azar o deles, pois chegamos rápido demais. Assim pensam alguns. Mas a nossa ala é boa. E pensamos no nosso melhor andamento do serviço. Não estamos nem aí para comandantes. Nós é que fazemos o nosso ambiente de serviço. E a nossa ala é uma das melhores: para nós mesmos. Não para a polícia. A polícia não merece muito de nós e a sociedade, muito menos.

Nos cumprimentamos. Passamos o serviço. Entregamos o armamento. Me despeço do meu companheiro de ala. Ele vai para casa fardado mesmo. Ele me disse uma vez que não se preocupa mais com isso. Perdeu a mulher para um endinheirado da vida. E não tem filhos. Não faz diferença nenhuma para ele se no caminho se deparar com um bonde de vagabundos e vier ao confronto inevitável e fatal. Ele não esquenta mais. Somos praças de polícia. Não tememos o inimigo. Beleza então. Me despeço dele com nosso famoso "bom descanso". Este é um dos poucos amigos que fiz na PMERJ. É isso é difícil.

Me dirijo ao alojamento. Enquanto troco de roupa, converso com alguns colegas de serviço. Conversa de polícia. E o assunto em pauta é sempre as mazelas de nossa PMERJ. É assim mesmo. Não é uma conversa normal de fim de expediente de uma empresa qualquer. Nós que somos policiais militares do Rio de Janeiro sabemos bem disso. Desço as escadas. Confiro a escala de serviço. E vejo que estou escalado em mais um serviço extra. E na minha segunda folga. Normal, para nós, policiais militares. Saio do quartel, passando pela guarda. Me despeço com nosso também famoso "bom término".

Não tenho carro. Nem moto. É de ônibus mesmo. Tensão em nível elevado. Fardamento na bolsa. Não tem outro jeito. Tem que levar para lavar. Senão é outro DRD, por estar com o fardamento fedendo e sujo. E lá vou eu. No caminho para casa, são três favelas. E perigosas. Qual favela não é perigosa para nós, policias militares? Cada um que entra e saca o bolso ou a carteira da mochila para pegarem os seus RioCard, ou mesmo dinheiro, é um marginal em potencial. O movimento de saque para o policial é um ato de ação-relâmpago. É atormentador. Se for vagabundo anunciando o assalto, praticamente já fomos pegos de surpresa.

Chego em casa. É quando realmente me sinto aliviado. A tensão diminui. Tenho muito o que fazer. Ainda vou dar uma estudada para um concurso que devo realizar dentro de poucos dias. Este ano já é o terceiro que realizarei. Espero passar. Amigos meus me chamam para sair. Não posso, pois além de ter que estudar, só tenho o dia seguinte de folga. E para estudar. Larguei a segurança. E mesmo se quisesse, não teria dinheiro.

Já passa das três horas da manhã. Vou me deitar, pois amanhã tenho muito o que fazer.

O dia seguinte é um dia normal. Mas um pouco entediante. Só de saber que já estamos de serviço no dia seguinte. E de serviço extra. Não remunerado, diga-se de passagem. Na PMERJ, além de sermos muito mal pagos, ainda trabalhamos de graça.

Já é noite e me preparo para ir dormir. Amanhã, serviço. Extra. Dói só de lembrar. E ainda estou muito cansado. Os dias estão muito quentes e nosso serviço é de "baseamento". Ficamos 12 horas baseados. Sem água. Sem banheiro. É muito cansativo. e desgastante. Para não falar que somos alvos fáceis de bandidos. É assim, na PMERJ. Hora de dormir.

Acordo cedo. São 4:30 da madrugada. É cedo mesmo. Se eu deixar para sair meia hora mais tarde pego engarrafamento. Aí chego atrasado. Melhor acordar 30 minutos mais cedo do que chegar atrasado e trocar um fim de semana de folgão por 3 dias de detenção.

Pego o ônibus. Tensão até o trabalho, como sempre. No caminho vejo que o trânsito está completamente parado. Fazer o quê. A minha parte eu fiz. E enquanto o ônibus faz o trajeto, vejo que não há viatura operacional na rua. Até não acho estranho, mesmo porquê o efetivo da polícia hoje é ínfimo. Muito aquém do necessário. E no caminho percebo que viaturas da Polícia Civil estão baseadas no lugar das viaturas da PMERJ. Estranho.

Adiante, já próximo da unidade, nenhuma viatura baseada ou circulando. Neste momento sim, vejo que alguma coisa está acontecendo. E como somos militares, boa coisa não é, pensamos nós.
Motim? Não acredito. Praças nunca foram unidos. E realmente não há viatura na rua. Ligo para um amigo meu e ele diz para chegar rápido ao quartel. Algo está acontecendo. Como sou frio de natureza, mantenho a calma. Chego ao quartel. Um colega está próximo ao corpo da gurda. E o que vejo é surreal.

São centenas de policiais militares. Dezenas de viaturas amontoam-se no pátio. E fico sabendo: foi sancionado pelo Presidente da República, o projeto que unifica e desconstitucionaliza as polícias militares e cria as Polícias Estaduais. Um sonho. Que agora é real. Não dá para acreditar mesmo. Todos riem à vontade. Não há mais miliarismo. E junto ao projeto, foi sancionado também uma medida provisória que passa à união o orçamento da segurança pública. E isso significa aumento. Aumento real. Será que ainda estou em casa dormindo? E sonhando?

FORÇA HONRA, FÉ!

Um comentário:

  1. Sd Oliveira, excelente postagem. Acho que nem tenho mais o que dizer, a não ser repetir: Excelente postagem!
    Torço para que você alcance seus objetivos.
    Um abraço de um colega de Minas.

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"Quando o Estado abandona seus servidores, deixando-os à mercê do outro lado, é porque, muito provavelmente, o Estado está do outro lado"

Giovanni Falcone, Juiz italiano especializado em processos contra a máfia siciliana Cosa Nostra.

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